Por que psicólogos do esporte estão mais preparados para trabalhar aspectos mentais com atletas?

Atualizado: Ago 9

À atletas quero informar que esse texto traz motivos (nem tão óbvios) que tornam a procura por um psicólogo do esporte a sua melhor opção se quiser cuidar do seu "aspecto mental" no esporte.


Aos colegas psicólogos e psicólogas, devo esclarecer que esse não é um daqueles textões que reafirma nossos 5 anos de graduação, mais tantos de especialização e não sei quantos trocentos anos de prática e blá blá blá. Maaas... Sim, é sobre o quanto vocês estão mais preparados e deverão ser a escolha número 1 quando se trata de "preparação mental", "preparação psicológica" ou seja qual for o termo de preferência que tem sido utilizado (e muito banalizado).


Há 1 ano aproximadamente fiz uma postagem no Instagram sobre "10 motivos para você procurar um profissional de psicologia do esporte". Porém, comecei a perceber que a questão está muito além dos "motivos" para atletas/treinadores/dirigentes buscarem estes profissionais, pois o que está em jogo é muito mais que a preparação do atleta, é sua saúde.


Por isso apontarei três situações com base em experiências anteriores com atletas e treinadores que me fizeram perceber que é indispensável que diante de aspectos psicológicos, o psicólogo do esporte seja sua melhor opção.


Situação 1: "Me ensinaram todas essas técnicas para controlar minha ansiedade, mas agora tá pior. Será que o problema sou eu?"


Tive a oportunidade de trabalhar com alguns atletas que aprenderam durante sua trajetória no esporte algumas técnicas oriunda das "ciências psis". Alguns aprenderam com outros atletas, com seus treinadores, na internet e até contrataram serviços com a promessa de entrarem para o seleto grupo dos "campeões" em seu esporte.


O curioso é que as mesmas técnicas, que conhecemos e sabemos da validade científica, estavam dificultando ainda mais a vida do atleta a ponto de se sentirem culpados pelas emoções que estavam vivenciando no esporte. Mas por que isso estava acontecendo se a ciência tem mostrado que o uso dessas técnicas tem dado certo?


É mais bobo do que parece... Mas somente para profissionais de psicologia especialistas na área isso seria tão óbvio: Cada atleta é único. E por todos os motivos que ser único carrega é que nem todo atleta responderá de forma positiva para técnica X ou Y. É preciso mais do que conhecimento sobre algumas técnicas, protocolos ou uma dinâmica legalzinha.


As dificuldades que estes atletas vivenciavam com a ansiedade estavam além do conhecimento de uma técnica e para identificá-las foi necessário conhecer cada detalhe relevante na vida esportiva destes atletas. Logo não bastaria um e-book, um vídeo, um áudio ou um aulão para ajudá-los (apesar de gostar muito desse tipo de material). Era necessária toda a atenção e cuidado de um profissional de saúde especializado na área para entende-lo.


Felizmente a ciência está cada vez mais presente no dia a dia das pessoas, porém, infelizmente, há muitos se aventurando nos fragmentos de conhecimento científico e banalizando técnicas que poderiam ajudar pessoas, em especial atletas.


À você atleta, consultar um profissional de psicologia do esporte evitará que caia em "ciladas".


Situação 2: "Eu tenho que separar meu trabalho com esporte do lado pessoal da minha vida. Mas às vezes eu não consigo e 'explodo'."

Huuuuuum... Pois é... Não é bem assim. O que acontece é bem parecido com o que citei anteriormente. Pessoas buscando "receita de bolo" para lidar com questões emocionais dentro do esporte. E fico impressionado (para não dizer assustado e com medo) vendo a quantidade de pessoas dando dicas sobre essas receitas por aí.


Vejo treinadores e atletas lidando diariamente com o mito de que vida profissional e pessoal deve ser separada. E adivinha? Não conseguem. É como um rio que depende das árvores para viver em segurança. Não há como separá-los. Por isso tenho entendido essas dicas caseiras de separar profissional e pessoal na vida de atletas e treinadores como uma forma imprudente de "silenciamento" das emoções.


E me refiro a silenciar em seu sentido literal, algo como "Não falarei da minha pessoal e assim irei bem no esporte" no caso de atletas ou "Vou fingir que estou bem para meus atletas e passarei o treinamento como sempre faço". A consequência disso é que de fato uma hora "explode". Por outro lado, ser franco e reconhecer como as dificuldades em ambos contextos o afetam pode ser o melhor caminho, apesar de desafiador.


Certa vez um atleta me disse algo fantástico, mais ou menos assim: "Se minha vida pessoal está bem, parece que tudo fica mais fácil no meu esporte. Se ela tá ruim, tudo fica mais difícil". Genial, não?


É exatamente essa perspectiva que tenho carregado no cotidiano de trabalho com atletas e treinadores. Afinal, auxiliá-los a lidar melhor com seus "dramas cotidianos" é uma excelente maneira de prepará-los também para encarar os desafios, dificuldades e alegrias dentro do esporte.


Sem querer me estender mais, há profissionais que foram treinados para entender como vida pessoal e profissional se abraçam. Assim como um médico está preparado para tomar a melhor decisão ao indicar uma medicação e cuidar da sua saúde, psicólogos estão preparados para mostrar que emoções não são um bicho de sete cabeças e que você não precisa sufocá-las para viver bem.


Situação 3: "Fiz um teste de personalidade online que me indicaram e agora não sei o que fazer com esse resultado, estou confuso"



Para iniciar conversa, testes de personalidade confiáveis demandam longos e exaustivos estudos. No Brasil, o Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos - SATEPSI é quem avalia a validade testes psicológicos e indica para uso aos profissionais de psicologia. Sem falar que pela Lei Nº 4.119/62, o diagnóstico psicológico é função privativa de psicólogos.


Mas por que estou dizendo isso? Apenas para lembrar que há muitos testes de personalidade online sem validade científica que estão expostos "na doida" (exercitando meu amazonês) e são insuficientes para avaliar características de personalidade.


Tenho percebido que a indicação indiscriminada dessas ferramentas aos atletas tem causado mais problemas do que auxiliado, principalmente pelos resultados diversos que cada teste acaba apresentando. Ansiedade, estresse, falta de sono, problemas relacionados a autoimagem e autoestima são algumas das consequências que as informações incoerentes de muitos desses testes poderão provocar.


Especialistas em psicologia do esporte estão aptos para a utilização de instrumentos psicológicos validados para uso no Brasil, além disso, estão atentos para avaliar as características de um atleta dentro da sua própria modalidade e região do país. E por experiência própria, uma avaliação bem feita por um profissional pode ajudar muito um atleta, uma equipe ou um treinador.


Para não finalizar...


Aos colegas da psicologia, indico que discutam mais em suas localidades sobre a importância da psicologia no contexto esportivo, principalmente entre seus pares, de preferência, sem "psicologuês".


Aos treinadores e dirigentes, escutem o que profissionais de psicologia tem a dizer, afinal, aposto que ficarão muito mais satisfeitos quando olharem para seus atletas e perceberem o quanto foi importante tomar a decisão de oferecer cuidados e treinamento psicológico ao longo da carreira.


Aos atletas, cuidar da sua preparação mental no esporte é tão necessário quanto cuidar de qualquer outro aspecto. Se em questões técnicas você consulta um técnico no seu esporte, se em questões físicas você consulta um preparador físico, se em questões nutricionais você consulta um nutricionista, em questões mentais/psicológicas, não pense duas vezes, procure um psicólogo. Não faça apostas em qualquer coisa, valorize sua preparação como atleta.

©2020 por Psicologia do Atleta - Matheus Vasconcelos