Por que a coragem é tão importante para atletas?

Texto elaborado em parceria entre Matheus Vasconcelos (@psicologiadoatleta) e Tércio Teles (@psicologiaesporteclube).


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Falamos bastante sobre a coragem, mas o conhecimento produzido sobre esta palavrinha que para alguns significa uma virtude e para outros uma habilidade, ainda é um conhecimento incipiente.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

A coragem é tida em diversos dicionários e textos como uma espécie de resistência ou uma ausência de medo. Algo similar à postura dos heróis nos filmes de guerra: "Vamos lutar e resistir até que caia o último homem!".

O professor Jason Smith da Universidade de Vanderbilt coloca em cheque essa noção de coragem e a chama de resistência tola. Para Smith, a coragem deve ser entendida como uma espécie de sabedoria que demanda aprendizagem e diríamos que até treinamento.⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀

Não é o simples esforço técnico e vazio de "superação do medo" tão difundido em grande parte da pedagogia esportiva que traz à tona a coragem do atleta. Mas é justamente o seu potencial de mobilizar a experiência do atleta que a torna tão importante e valorizada em qualquer grupo esportivo.⠀⠀⠀⠀⠀⠀


Mas então, o que é a coragem e como ela está presente no esporte?

A coragem é uma habilidade humana utilizada para enfrentar grandes desafios ao longo da vida. No esporte, a superação das dores físicas e psicológicas é entendida como uma manifestação da coragem do atleta.

Porém, como já dissemos - se coragem fosse apenas "superar um medo", todo ato que se distanciasse do perigo então seria falta de coragem? E por que esperar um perigo passar (como o risco de uma lesão para um atleta ou outras situações estressantes) e voltar em melhores condições de enfrentamento não seria um ato de coragem?

A compreensão de coragem como ausência de medo produz pouco, nenhum ou até um ilusório aprendizado. E na pior das hipóteses prejudica a saúde do atleta.

Penso que é necessário retornar à Aristóteles e sua compreensão de que o coração era a sede da inteligência... Da alma. Isso explica, por exemplo, porque a etimologia da palavra coragem é Cor (coração) + Aticum (Ação) - Agir com o coração. Ou melhor, se tentássemos interpretar a partir desta noção de Aristóteles: Coragem é agir com inteligência e sabedoria.

Seja com o "coração" ou com a "razão", é possível que a coragem esteja presente.

⠀⠀⠀Por isto, temos considerado que coragem é saber avaliar o conhecimento passado, presente e as possibilidades de futuro para tomar a melhor decisão e assegurar o próprio bem-estar. Coragem sem qualquer reflexão ou análise do que se está enfrentando não é coragem. Seria apenas tolice ou ignorância frente a situação.

Por isso é tão importante falar e ensinar sobre coragem no esporte.

E esse enfrentamento que tem como princípio a tomada de atitudes inteligentes poderá estar permeado pelo medo como anuncia o significado de coragem no dicionário. Haverá um "agir apesar do medo", porém a ação corajosa é coberta da autoconfiança (que será um tema para outro texto).

Qualquer esportista usará a coragem ao longo da sua vida esportiva e esta habilidade será sua maior companheira de trajetória. Haverá a coragem para enfrentar sua estreia, a coragem para sair da zona de conforto, coragem para enfrentar um grande adversário, coragem para fazer uma viagem, coragem para enfrentar a incerteza da vitória, coragem para buscar patrocínios e assim sucessivamente.

Todas essas situações demandarão do atleta a capacidade de avaliar o contexto, o seu conhecimento e o potencial de enfrentar tal situação. A partir de uma boa avaliação da situação virá o ato de coragem.

Por fim, vale destacar que essa coragem pode ser fortalecida por você atleta se você souber como desenvolver essa habilidade ao longo da sua trajetória. Quando mais consciente e interessado você for sobre tomar atitudes corajosas, melhores serão suas tomadas de decisão diante de grandes desafios do esporte.


Como a coragem se manifesta ao longo da vida do atleta?

Como já dissemos, a coragem fará parte de toda a carreira esportiva de qualquer atleta. Da iniciação esportiva ao contexto profissional haverá manifestações da coragem. Na iniciação esportiva uma criança agirá com coragem ao enfrentar seus primeiros desafios no esporte, como por exemplo, sua primeira competição. Assim como um atleta ao tomar a decisão de encerrar sua carreira agirá com base na coragem para enfrentar os novos desafios que surgirão com a aposentadoria.

Na trajetória da criança no esporte, é natural que o medo e a ansiedade se tornem parte da sua trajetória. Porém, a exposição gradual à essas sensações ao longo da iniciação permite que a criança aprenda a desenvolver sua coragem. Por outro lado, a exposição excessiva e não planejada às situações de desconforto ao longo da iniciação esportiva podem levar ao abandono precoce. Ou seja: Assim como o esporte pode possibilidade o encorajamento, também poderá gerar desencorajamento.

Para a criança, uma das maiores manifestações da coragem será a sua intenção de continuar vivendo a experiência esportiva.

Já no mundo profissional, a coragem também estará presente e poderá se manifestar de maneiras distintas.

Se olharmos para os megaventos (Copa do Mundo e Jogos Olímpicos), veremos que atos de coragem são comuns entre atletas. Seja durante uma competição ou em uma manifestação pública.

Você deve lembrar de Simone Biles, a ginasta norte-americana, multicampeã em seu esporte, que de maneira inesperada (ao menos para quem vivia a expectativa de vê-la competindo) deixou de participar da disputa nos jogos olímpicos por motivos de saúde mental. Em uma das entrevistas sobre tal escolha, Biles lembrou que muitas vezes é preciso dar um passo para trás e não fazer o que as pessoas esperam de uma atleta.

E devemos lembrar que queiram ou não, se expor de tal maneira para um tema que é considerado tabu no mundo esportivo, é um grande ato de coragem. Assim como foi um ato de coragem quando ela optou por disputar medalha na trave de equilíbrio onde conquistou o bronze.

Outros atletas também são exemplos quanto o assunto são atitudes corajosas no esporte. Vanderlei Cordeiro quando foi derrubado por um expectador na maratona de Atenas em 2004 e seguiu na prova para conquistar a medalha de bronze. O atleta demonstrou um dos maiores atos de coragem já visto na história do Jogos Olímpicos e por isso foi condecorado com a Medalha Pierre de Coubertin, uma das maiores honrarias dos jogos olímpicos. O mesmo se aplica à Tommie Smith e John Carlos que protestaram de punhos cerrados contra o racismo no pódio olímpico dos Jogos de 1968 no México e também à Gabriela Andersen que terminou a maratona feminina dos Jogos de Los Angeles cambaleando - Era a estreia da maratona feminina e um ato de coragem histórico para as mulheres esportistas.

Independente da modalidade, da trajetória esportiva, na história de vida do atleta, o mundo esportivo convida para atos de coragem. Para isso é necessário que o atleta seja encorajado ao longo de toda sua carreira.

Por isso lembramos novamente: Coragem não é em hipótese alguma ausência de medo. Em muitas situações, agir sem ou independente do medo poderia ser imprudência e não coragem.

Por isso, para Confúcio, coragem seria fazer o que é certo... Sendo que só é possível saber o que é certo se você tiver buscado o conhecimento necessário para avaliar o que será o certo/errado.

Logo, as experiências dos atletas citados acima nos obrigam a lembrar você leitor que:

🔴 Sentir medo, mas ainda assim avaliá-lo para saber como agir é um ato de coragem.

Mas também:

🔴 Dizer não para uma situação é um ato de coragem.

🔴 Abrir mão de algo é um ato de coragem.

🔴 Aceitar sua força e sua vulnerabilidade é um ato de coragem.

🔴 Admitir que você tem algo para melhorar é um ato de coragem.

Coragem é esse potencial de olhar o mundo, ter emoções e ainda assim tomar as melhores decisões.


A coragem por trás da competição

É natural que alguns atletas em início de carreira tenham medo da competição. Afinal, estar diante de um adversário que você sabe que está preparado para enfrentá-lo é sem dúvidas um grande desafio.

Porém, é importante lembrar que a coragem existente em um atleta durante uma competição é fruto das sucessivas situações em que ele usou seu conhecimento (sobre seu esporte e sobre si) para enfrentar os desafios que necessitava superar.

A coragem na competição advém do processo de competir inúmeras vezes e da constância na sua preparação. Parece óbvio, né? Mas é isso mesmo. Imagina que você um atleta de judô, por exemplo. Você sentirá o medo de competir na faixa branca, mas se enfrentar esse primeiro medo com as habilidades que já adquiriu, em pouco tempo estará competindo entre atletas de graduação superior e assim sucessivamente. O mesmo se aplica à outros esportes.

A ansiedade da estreia de um jovem de 16 anos no futebol ao lado de atletas que ele já admirava demandará e até desenvolverá a coragem neste atleta. É uma parte do processo.

Mas como manter-se nesse processo de encorajamento durante uma competição? Considero que estes pontos abaixo estão entre as estratégias mais utilizadas por atletas para manter a sua coragem e prontidão a todo vapor quando estão competindo:

  1. Evitar preocupar-se com a opinião dos outros demasiadamente.

  2. Gerencia sua confiança durante a competição.

  3. Trabalhar seu diálogo interno.

  4. Ter metas de processo bem definidas durante a competição.

  5. Aceitar a si mesmo e suas condições no momento da competição.

E veja bem... A partir dos pontos acima, sabemos que a coragem, antes considerada uma virtude, é uma habilidade psicológica que você pode treinar. Afinal é possível preocupar-se menos com a opinião dos outros se você aprender a se autoavaliar de maneira independente, é possível gerenciar sua confiança se aprender a estar mais consciente durante o jogo, é possível trabalhar o seu diálogo interno se perceber que podemos construir pensamentos mais positivos, é possível ter metas condizentes com os desafios do jogo se refletirmos sobre como defini-las e é possível aceitar suas condições para a competição se souber como e para que serviu sua preparação nos últimos meses.

A coragem se faz mais presente quando esse conjunto de habilidades que cercam a coragem são parte do seu cotidiano de preparação.


A coragem do atleta para a sociedade

Por fim, gostaríamos de lembrar de algo importante: A coragem que atletas escolhem manifestar ao longo da sua vida esportiva não estão a serviço apenas de si, mas tem importantes repercussões sociais.

O que essa coragem representa para as pessoas? Por que muitos se inspiram em atletas para enfrentar seus próprios desafios cotidianos? São questões que temos que estar sempre atentos. E você atleta também deve ficar atento.

Uma atitude esportiva para a sociedade pode marcar gerações inteiras. Hoje mulheres competem porque houve outras que tiveram a coragem de dizer que iriam competir, hoje há direitos no mundo esportivo porque muitos atletas exigiram isso em tempos passados.

Uma atitude de coragem sempre poderá se tornar um espelho para novas gerações e será o canal de inserção de novos valores na sociedade. E veja bem, não estou querendo dizer que com isto um atleta carrega o peso do mundo nas suas costas, mas sim que seu papel e o que representa está muito além do que vemos na competição.

Afinal, a responsabilidade social por trás das atitudes permeará a vida de qualquer pessoa. Até mesmo a de psicólogos esportivos.

Quando Hebert Conceição, medalhista olímpico em Tóquio gritou para a televisão "Aqui é Bahia p#rr#!" ele falou com toda uma comunidade que o verá como referência para muitas atitudes e escolhas no futuro, em especial para aqueles que escolherem o seu esporte. Ao mesmo tempo, manda uma mensagem para um país que concentra os investimentos no esporte no eixo sudeste.

Inclusive, é isto que faz com que essa habilidade seja considerada por muitos uma virtude. Ela impulsiona atletas não somente a quebrar recordes, mas também rompe com muitos paradigmas da sociedade.

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