Plantão psicológico em instituições esportivas

O Plantão Psicológico é uma modalidade de atendimento que visa acolher um número maior de pessoas e suas necessidades. Tal tipo de serviço se configura como uma prática constituída no Brasil. Os pesquisadores Fábio Barbosa e Karin Aparecida Casarini lembram que o plantão tem por principal função disponibilizar em locais e horários específicos uma escuta que auxilie a pessoa a compreender o suas necessidades naquele momento de urgência. Sua principal característica é ser breve e focada nas demandas urgentes de quem busca.

Desde que eu comecei a aprofundar meus estudos na Psicologia do Esporte, ainda em 2012 no início da graduação, tenho percebido principalmente em sua literatura acadêmica, que as discussões sobre o atendimento de demandas urgentes dentro do contexto esportivo são incipientes. Isto possivelmente se deve ao fato da Psicologia do Esporte no Brasil ter fundamentado grande parte da suas práticas em uma intrínseca relação com os conhecimentos advindos das ciências do esporte, mas também a partir de uma perspectiva que é centrada no treinamento do atleta.

Não considero que isto seja um problema dentro do contexto de prática dos profissionais de psicologia, porém, acredito que a modalidade de atendimento tendo como base o plantão psicológico é possível de ser realizada em instituições que atendam uma alta demanda de atletas profissionais ou em formação.


Saúde mental e preparação psicológica no esporte

Já comentei em outro texto que a preparação psicológica envolve diversos aspectos que vão além do treino psicológico. O que quero dizer é que diversos aspectos da vida do atleta que estão intimamente ligados com a sua saúde mental são parte do universo da preparação psicológica.

Certamente todas essas dimensões da vida de um atleta são partes importantes de toda a sua preparação ao longo de uma temporada. Algumas dimensões terão maior ou menor importância a depender das atuas condições e contexto de vida e preparação esportiva que o atleta vivencia. Porém, é certo que necessidades advindas destas variadas dimensões podem emergir espontaneamente no cotidiano.

Um atleta pode ter importantes demandas relacionadas com a sua carreira, outro em relação a conflitos em seu núcleo familiar e um terceiro com as relações dentro da sua equipe esportiva. A depender do "tamanho" de uma instituição esportiva, muitos atletas não terão acesso facilitado à um profissional de psicologia, ficando a mercê da disponibilidade de um profissional específico para a sua equipe ou da contratação dos serviços particulares de um psicólogo.

Estas demandas que comumente são "sufocadas" pelo contexto esportivo exigem a discussão de alternativas para que o acesso ao cuidado em saúde mental seja uma realidade cada vez mais presente na vida de atletas.


Plantão psicológico em organizações esportivas: Como seria possível?

A necessidade mais urgente é que esta discussão se torne mais presente entre profissionais de psicologia do esporte. O plantão psicológico ainda é uma modalidade de atendimento com maior presença em clínicas, hospitais, escolas e grandes empresas, porém altamente replicável em qualquer contexto de trabalho com pessoas. Com o esporte não seria diferente.

Um departamento de saúde de um clube pode contar com uma equipe de profissionais de psicologia que são responsáveis por toda preparação psicológica das equipes em atividade no clube, mas também, pode atuar em regime de plantão em dias e horários específicos dentro da instituições. O mesmo se aplicaria à federações, confederações, associações e outras entidades dos mais variados esporte.

Pode parecer algo improvável de ser realizado? Sim. Mas é algo que nas entrelinhas já ocorre nos principais locais de atuação de profissionais de psicologia do esporte, porém, não costumamos considerar estas atividades como parte ou relacionadas com os objetivos do que seria o plantão psicológico.

Exemplo disto que estou falando é a matéria veiculada pelo Comitê Olímpico Brasileiro - COB sobre o suporte psicológico oferecido aos atletas brasileiros em Tóquio nos jogos olímpicos. Em um trecho da matéria é destacado:

"Os profissionais de preparação mental do COB também estão a postos nos Jogos para atendimentos emergenciais e atuam em sintonia com as equipes técnicas no Japão e com os psicólogos que estão no Brasil".

Estes atendimentos ofertados durante os Jogos Olímpicos de Tóquio aos atletas são nada mais, nada menos do que atendimentos de plantão psicológico. E aqui vale ressaltar algo interessante. O plantão ele não precisa ter um caráter necessariamente clínico, pois como é afirmado no artigo de Fernanda Maria Donato Gomes, é possível atentar à qualquer tipo de urgência a partir do plantão psicológico. Dessa forma, eu destacaria que dentro do contexto esportivo, as seguintes demandas são passíveis de atendimento de plantão por psicólogos:

  • Mediação de conflitos de equipe;

  • Mediação de conflitos familiares;

  • Orientação e planejamento de carreira;

  • Aconselhamento e orientação em saúde;

  • Prescrição de treino de habilidades psicológicas;

  • Acolhimento de outras situações estressantes.

A possibilidade do uso do plantão psicológico em instituições esportivas também reforça o necessário retorno à essência do cuidado ofertado por profissionais de psicologia: O cuidado. O que acaba por desmistificar que o papel do psicólogo é restringido somente à preparação em busca de performance.

Além disso, pense no seguinte: Uma pequena instituição sem possibilidade de lhe contratar de maneira integral para acompanhamento de uma equipe esportiva que tem mais de 30 atletas em formação. Ao invés de restringir o acesso ao seu serviço, você pode estabelecer um contrato de plantão com esta equipe - 4 horas semanais, por exemplo - e então ofertará atendimentos individuais podendo orientar atletas sobre habilidades psicológicas básicas e acolher demandas mais emergentes dos atletas da instituição.

Mesmo se tratando de uma diálogo novo isto que estou propondo, convido você que é especialista em psicologia do esporte e trabalha de maneira autônoma ou como prestador de serviço à instituições esportivas, a buscar alternativas para elaboração de projetos de plantão psicológico. Mesmo que já esteja presente em um departamento de saúde com o trabalho já consolidado ou que esteja buscando adentrar organizações esportivas, cogitar a possibilidade de ações a partir do plantão poderá ser uma boa alternativa.


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