Melhor campanha da história dos jogos olímpicos: Motivos para comemorar?

7 medalhas de ouro, 6 de prata e 8 de bronze. 21 medalhas conquistadas ao todo. Esses são os números por trás da melhor campanha do Brasil na história dos Jogos Olímpicos.


Mas será que este é o único motivo que temos para comemorar? E devemos parar o nosso olhar apenas na comemoração deste resultado?


Apontarei adiante motivos que nos deixam orgulhosos e de fato são para comemoração, mas também questões para ficarmos atentos sobre o esporte brasileiro.


O investimento no esporte brasileiro

Conquistar uma medalha olímpica enquanto vimos o investimento no esporte brasileiro ser reduzido nos últimos anos certamente é uma grande conquista. E uma delegação superar todas as marcas de jogos anteriores destaca o potencial presente no esporte brasileiro.

Para ilustrar, os dados do site Transparência no Esporte, uma iniciativa da Universidade de Brasília - UNB, mostram que o investimento no esporte brasileiro teve redução de aproximadamente R$ 350 milhões comparados com o ciclo olímpico anterior. E não podemos esquecer que somado a este fator, em 2019 o governo brasileiro extinguiu o Ministério do Esporte. Isto não só diminuiu a quantidade de recursos federais disponíveis no governo, como gerou um movimento de extinção de secretarias de esporte no âmbito estadual e municipal pelo país. Isto significa uma diminuição no potencial de gestão do esporte brasileiro.

E por que isso é um problema? Simplesmente porque gestão é um dos maiores problemas enfrentados pelo esporte no país. Afinal, foi o que apontou o estudo da Sport Policies Leading to International Sporting Success (SPLISS) em 2017 e que classificou o Brasil como um dos países mais ineficientes na aplicação de recursos públicos no esporte, mesmo sendo um dos países que mais destinam recursos públicos à confederações esportivas. Por conta desta informação, a ESPN elaborou no referido ano o Dossiê das Contas do esporte brasileiro mostrando como ocorre a má aplicação deste dinheiro, apontando irregularidades, fraude em licitações, ausência de prestação de contas e cartolas que chegam a receber o equivalente a ministros.

Isto mostra por um lado que temos um problema crônico com tudo que envolve dinheiro e gestão no esporte brasileiro, mas por outro, destaca que temos um grande potencial humano disponível para formação de atletas. E vale lembrar que conquistamos esta marca sendo não apenas um país que investe e gere mal o seu dinheiro no esporte, mas também o país com pior Índice de Desenvolvimento Humano - IDH comparado aos países que terminaram a frente no quadro de medalhas.

Por esses motivos, temos que comemorar o fato dos atletas brasileiros conseguirem contornar um contexto de organização esportiva que não os prioriza, por outro, ainda temos que lamentar e pensar alternativas para mudar essa realidade do esporte e das condições de vida dos atletas e do povo brasileiro.

Desigualdades regionais e o "Comitê Olímpico Baiano"

O protagonismo de atletas oriundos da região nordeste do Brasil nos chama atenção para um fato importante: O investimento no esporte e a estrutura esportiva precisa ser melhor distribuída no país.

Atletas da região norte e nordeste sempre foram minoria como representantes brasileiros nos jogos olímpicos. Analisando apenas as duas últimas edições (Rio de Janeiro e Tóquio), podemos perceber que até brasileiros nascidos fora do Brasil costumam ser maioria do que atletas da região norte, por exemplo. Por outro lado, desde 2008 a presença de atletas nordestinos tem se fortalecido nos jogos olímpicos, sendo esta edição de Tóquio a que tivemos o percentual mais animador de distribuição de atletas por região, com 15,46% de atletas nordestinos. A região norte, infelizmente, seguiu sem representantes neste ano e explico melhor os motivos sobre isso nesse link: Desigualdade Olímpica.

Com a representatividade em alta dos nordestinos nas olimpíadas de Tóquio, surgiram até brincadeiras e comparativos mostrando que se a Bahia fosse um país, ultrapassaria muitos no ranking de medalhas. Foram 5 medalhas, sendo 4 de ouro, o que renderia a 21ª posição no quadro de medalhas para o que os internautas tem chamado de "Comitê Olímpico Baiano".

Mas brincadeiras a parte, este é um sinal importante de que o esporte brasileiro deve buscar alternativas para construir equidade na distribuição da infraestrutura e do investimento esportivo pelo território brasileiro. A centralização do esporte na região sudeste ainda pode ser um sintoma negativo do que se tornou a política esportiva no Brasil e o potencial humano para formação de atletas presente em outras regiões em um país com essas dimensões não pode ser ignorado. Sabemos que atletas da região norte e nordeste são minoria porque precisam ultrapassar muitas barreiras para chegar no alto rendimento.

Podemos comemorar que os atletas da região nordeste tem conseguido superar estas barreiras, mas ainda lamentamos a naturalização dessas desigualdades que talvez dificulte a chegada de muitos ao topo cenário competitivo e dificulte a chegada do Brasil à uma posição de potência olímpica

Preparação psicológica: Grandes avanços, muitos desafios.

A cada jogos olímpicos que passam temos percebido que a preparação psicológica e a figura do profissional de psicologia tem ficado cada vez mais evidente. Acredito que o principal sintoma positivo disso que estou afirmando foram as salas de preparação mental do time Brasil em Tóquio. É o sinal mais importante desses jogos olímpicos de que a psicologia tem seu lugar cada vez mais forte ao lado de atletas olímpicos.

Em grande parte isso se deve à coragem de muitos atletas que neste século tem se posicionado cada vez mais para apontar a importância dos cuidados com a saúde mental na alta performance. Penso que nestes jogos, a atleta Simone Biles esteve entre as atletas que possibilitaram a repercussão deste assunto durante os jogos olímpicos. Estar no topo do mundo no esporte não é sinal de que está tudo bem com a saúde. Sabemos bem como o esporte pode maltratar o corpo e a mente humana.

Mas outro lado da moeda é que a psicologia do esporte brasileira tem cumprido de maneira espetacular o seu papel no contexto esportivo e tem consolidado sua importância com excelentes profissionais a frente do trabalho com atletas, seja no contexto de alto rendimento ou de iniciação esportiva. Para ter uma ideia, somente em Tóquio o Time Brasil contou com a presença das psicólogas Carla Di Pierro, Marisa Markunas, Alessandra Dutra, além da Marina Gusson que esteve com a seleção brasileira de futebol feminino. Durante todo o período do evento estas profissionais foram responsáveis pelos cuidados relativos a preparação psicológica e saúde mental de atletas do Time Brasil, sempre buscando articulação com outros profissionais que estavam dando suporte do Brasil aos atletas.

Sem dúvidas a presença de todas estas profissionais, psicólogas especialistas na área esportiva, são sinal do importante avanço que temos dados na área nos últimos anos. Este com certeza é o nosso maior motivo para comemorar, mas gostaria de levantar outras questões.

Temos conhecimento de profissionais de psicologia cada vez mais presentes no contexto de alta performance quando se trata das seleções nacionais das modalidades. Porém, ainda precisamos avançar para que a psicologia do esporte esteja cada vez mais presente no contexto de formação de atletas, especialmente nas federações estaduais de cada modalidade. Afinal, o trabalho do psicólogo esportivo deve ser iniciado desde a base com cada atleta e não somente quando ele alcança seu espaço com resultados que o coloquem no topo do país (ou do mundo).

Obviamente não temos dados para discutir como a psicologia do esporte tem sido presente na formação dos atletas em cada estado do país. Porém, sabemos que ainda há muito espaço a ser ocupado por profissionais em clubes e federações no nível local. Isto ainda demandará das confederações, comitê olímpico e outros órgãos estaduais e municipais a organização de estratégias que tornem a psicologia do esporte mais acessível na formação base de atletas.

A preparação psicológica no esporte, ou melhor, a psicologia do esporte não foi pensada e nem pode ser considerada um privilégio de poucos. Sabemos da importância dessa ciência e precisamos apontar sobre a necessidade de que ela seja um direito de todos os atletas no território brasileiro.

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