Atleta: Como a ansiedade pode ser positiva?

É comum escutamos falar sobre o lado negativo da ansiedade e não precisamos fazer muito esforço para perceber isso: Basta lançar a palavra em qualquer mecanismo de busca e os principais resultados abordarão os aspectos negativos da ansiedade. Em outras palavras, tratarão a ansiedade frequentemente com base em algum transtorno de ansiedade, mas não abordarei aspectos psicopatológicos da ansiedade por aqui.


O que me motivou a escrever sobre como a ansiedade pode ser boa foi ter notado o quanto tem sido comum entre atletas, família e treinadores a percepção de que a ansiedade é algo negativo e que demanda muito esforço para ser "combatida". O resultado disso tem sido que atletas ficam mais preocupados e encontram novas dificuldades quando frustram suas tentativas para lidar com a ansiedade. Então, sempre que algum atleta surge com essa demanda, tenho reservado um espaço para ajudá-los a entender melhor o que de fato é a ansiedade em seu esporte.


Por isso, hoje escrevo para vocês, atletas.


Buscarei responder 3 questões: 1. O que é a ansiedade?; 2. Como a ansiedade atua a seu favor?; e 3. O que fazer quando a ansiedade atrapalha?


Darei créditos e tomarei como referência os estudos da Dra. Kate Sweeny da Universidade da Califórnia. A pesquisadora dedica-se há anos aos estudos sobre preocupação/ansiedade e tem mostrado que ela pode ser boa.


Mas e aí, o que é ansiedade?


A palavra ansiedade deriva do latim anxius/anxietas, que em termos gerais, significa preocupação. Por isso, a partir daqui tratarei a ansiedade como um estado de preocupação frente a uma situação que mostra-se desafiadora. É comum que as pessoas percebam essa preocupação de forma negativa, pois é comum a manifestação destes sintomas:


  • Inquietação.

  • Dificuldades para dormir.

  • Sudorese.

  • Pensamentos indesejados.

  • Fala acelerada.

  • Medo.

  • Aceleração dos batimentos cardíacos e respiração rápida.


Certamente, você que é atleta já percebeu alguma dessas sensações. São sinais de que você está preocupado com algo. No entanto, todas essas sensações tem algo em comum: Buscam preparar você para responder de forma eficaz a tal situação desafiadora e este é um dos motivos para o qual Kate aponta que ela pode ser percebida de forma positiva.


As dificuldades com a preocupação inicialmente surgem justamente por encararmos logo "de cara" ela de forma negativa. Por isso, ressalto que ela se manifestará em diferentes intensidades, e a depender dessa intensidade, talvez a preocupação esteja ali para te ajudar...


E como a ansiedade atua a seu favor?


Durante muito tempo os aspectos negativos da ansiedade tomaram conta das pesquisas. Não é à toa que a maioria dos profissionais de psicologia e psiquiatria saibam falar mais sobre transtornos de ansiedade do que sobre como ela pode ter lhe ajudado a evitar um acidente de trânsito na semana passada.


Sabendo disto, a Dra. Kate Sweeny tem buscado mostrar o outro lado dessa moeda e dado destaque para os benefícios da ansiedade. Veja alguns:


Prevenção: Pessoas preocupadas costumam tomar mais atitudes preventivas em relação a saúde. Procurar um psicólogo, por exemplo.


Atividades saudáveis: Associada ao motivo anterior, pessoas preocupadas costumam optar por estilos de vida mais saudáveis, como ter boa alimentação e praticar regularmente exercício físico e práticas meditativas, muitas vezes para diminuir alguma preocupação.


Reconhecimento das emoções: Pessoas preocupadas buscam compreender melhor suas emoções e confiar nelas quando surgem tentando "avisar alguma coisa".


Comprometimento: Pessoas preocupadas costumam ser mais comprometidas quando assumem uma responsabilidade. Por exemplo, se um atleta se compromete com seu treinador a perder peso, preocupar-se com isso o mantém mais motivado até alcançar o objetivo acordado.


Proatividade e enfrentamento: Pessoas preocupadas são mais proativas e buscam com mais frequência ações para solucionar um problema. Exemplo: Um atleta que não consegue manter um bom sono nos dias anteriores da competição, ao preocupar-se com isto, tem maior abertura para buscar ajuda de um profissional de saúde.


Capacidade de planejamento: Pessoas preocupadas costumam se planejar melhor para eventos futuros, antecipando obstáculos, facilidades e dificuldades que poderão surgir.


Amortecedor emocional: "Você está sofrendo antecipadamente, você tem que parar de se preocupar, ir lá e apenas jogar". Para a Dra. Kate Sweeny essa é uma postura que mais atrapalha do que ajuda. Imaginar acontecimentos permite acessar antecipadamente algumas emoções. Em seus estudos mostra que, ao vivenciá-las antecipadamente, as pessoas que preocuparam-se costumam lidar de forma mais eficaz com as emoções no futuro. "Como eu me sentiria se perdesse?"; "Como eu me sentiria se ganhasse?"; "E se eu enfrentasse o atleta favorito na competição?" são questões levantadas que sob orientação e feitas de forma consciente poderão auxiliá-lo.


Mas nem tudo são flores: O que fazer quando a ansiedade atrapalha?


Kate alerta que a preocupação também pode ter seu lado ruim. Por este motivo ela tem utilizado a hipótese do U invertido (figura abaixo) que também costumo apresentar aos atletas para que eles entendam melhor os níveis de sua ansiedade. Em suma, muita preocupação ou pouca preocupação pode ser ruim para um atleta, mas bom para outro. A questão é: Precisamos ficar atentos aos diversos fatores que afetam ao atleta, que vão desde a modalidade esportiva praticada até as nuances do seu cotidiano de treino e da vida pessoal.

Por isso, costumo explicar que há um nível ideal para cada atleta. Como o gráfico ao lado, cada atleta atinge seu melhor desempenho em diferentes níveis de ansiedade.


Se um atleta tem acompanhamento de um psicólogo esportivo, sensacional! Esse profissional poderá ajudá-lo nessa caminhada.


Mas sabendo que muitos não tem acesso ao profissional por questões estruturais do esporte, encerrarei deixando algumas dicas que poderão fazer com que a ansiedade deixe de ser uma companheira incompreendida:


1. Procure entender melhor as características do seu esporte: Concentração, autoconfiança, comunicação, liderança, tomada de decisão rápida... Identifique as habilidades psicológicas mais utilizadas no seu esporte.


2. Reflita sobre competições anteriores: Procure recordar de situações em que sentia-se muito bem e no seu melhor desempenho, e outras que sentiu-se mal e teve rendimento abaixo do esperado. Como estava seu pensamento? Que emoções estavam presentes? A ansiedade estava lá de alguma forma.


3. Reconheça, aceite e registre suas emoções: Não "rotule" esses pensamentos e emoções. O que eles tem a lhe ensinar e para o que querem te preparar? Em que momento lhe auxiliaram? Em que momento trouxe dificuldades? Encontre sua própria forma de registrar de ter maior contato com suas emoções.


4. Observe-se mais: Você entenderá que é possível lidar (não gosto da ideia de 'controlar') melhor com as emoções geradas pela ansiedade, observe suas reações em diferentes situações do seu cotidiano.


5. Compartilhe o que pensa e sente: Não há nada demais em falar sobre as emoções. É saudável. Compartilhar pode trazer outras percepções sobre qualquer situação cotidiana. Mas atenção, não leve tudo o que dizem a sério.


6. Reconheça alguns limites: Seja otimista, mas não fique distante da realidade. Se puder se preparar para algo, prepare-se. Caso não, aceite e repense objetivos. Se precisa mudar uma situação, mude. Se não for possível, mude o foco.


7. Foque no agora: Meditação, atenção plena ou consciência plena, como preferirem, é um conjunto de técnicas que a ciência tem mostrado que pode auxiliar pessoas a lidar melhor com a ansiedade, gerando aprendizado para focar mais no tempo presente. A Associação Brasileira de Psicologia do Esporte - ABRAPESP indicou 4 aplicativos de meditação. Experimente.


E lembre-se: Essas dicas não substituem um profissional de psicologia do esporte ao seu lado, mas poderão ajudar a olhar e lidar com a ansiedade de outra maneira.





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©2020 por Psicologia do Atleta - Matheus Vasconcelos