A árvore da preparação psicológica no esporte

Imagine que a preparação psicológica fosse representada por uma grande árvore. Cada parte da árvore e do seu ambiente seriam uma parte da preparação psicológica no contexto esportivo.


Há muito tempo o entendimento de que o papel da psicologia do esporte está voltado apenas para o treino psicológico ou aos cuidados com a saúde mental do atleta. Isso não passa de um tremendo engano que tem como origem a própria precariedade do cuidado aos atletas dentro das instituições esportivas.


Mas isso não vem ao caso no momento. Vamos focar em nossa árvore.

Se eu tivesse que eleger uma árvore para representar a preparação psicológica, seria a maior e mais frondosa.

O que seria essa grande árvore?


Essa grande árvore seria nada mais, nada menos do que a representação de todas as dimensões da preparação psicológica, onde muitas delas, frequentemente acabamos deixando de lado (por imposição do contexto e até intencionalmente).


Aqui farei opção por dividir essas dimensões conforme a própria morfologia de uma árvore: A raiz: Representa a historicidade do atleta, cultura, hábitos, valores, etc.

O caule: Representa aspectos que incidem na saúde mental do atleta, como relações, alimentação, cuidados com o corpo, descanso, sono e tudo que é capaz de nutrir ou desnutrir a saúde do atleta.

Os ramos e as folhas: Representa a dimensão relacional da experiência esportiva, tais como relações com membros equipe e comissão, relação com a instituição, com a mídia, com a política e com a sociedade.

As flores e os frutos: Representam a preparação integral do atleta com foco na sua performance. Também diz respeito a como o atleta lida com resultados e os desafios do ambiente de preparação esportiva. Aqui está o treino psicológico, uma parte da preparação psicológica.

As sementes: Representam o potencial de renovação e adaptação do atleta.


A raiz da preparação psicológica

A raiz: Uma parte vital da árvore.

A raiz da preparação psicológica representa os aspectos mais profundos da formação do atleta. Esta dimensão envolve todo o arcabouço histórico e cultural da vida do atleta, atravessa seus valores, o núcleo familiar e todos os hábitos aprendidos ao longo da vida.

Essa é a dimensão mais vinculada à sua autoimagem, autoestima e que mobilizam aspectos relevantes da sua motivação. Sua origem social representa em grande parte uma parte mobilizadora pela busca da experiência esportiva.

O atleta muitas vezes pode não gostar ou aderir ao trabalho de psicólogos esportivos, mas em tese grande parte dos cuidados com a mente construído pelo próprio atleta residem nesta dimensão da árvore da preparação psicológica.

Onde esse atleta nasceu? Qual sua história de vida? Por que optou pela carreira esportiva? Quem são seus familiares mais próximos? O que aprendeu ao longo da vida com suas relações mais próximas? Quais são seus principais interesses na vida? Que valores construiu durante esse período?

São questões que respondem aos pontos mais relevantes da raiz da preparação psicológica.

O caule da preparação psicológica

O caule: Tudo que nutre a saúde da árvore.

Pelo caule passa tudo que dá sustentação à árvore. Sem os caminhos de nutrição do caule não há saúde. É por este motivo que sempre comento que performance e saúde mental não são coisas distintas. Elas não caminham separadas. São faces da mesma moeda.

O caule da preparação psicológica envolve todos os cuidados da preparação que incidem sobre a sua saúde mental. A rede de relações e apoio social do atleta, cuidados com a nutrição e com o corpo, sono, ambiente, estrutura de treino, condições de apoio financeiro e familiar e outros aspectos poderão incidir naquilo que representa o caule.

Tudo que passa por aqui merece atenção, pois poderá ter impacto direto em outras dimensões da experiência esportiva do atleta. O trabalho do psicólogo esportivo diante desta dimensão é garantir que todas as coisas que precisam "nutrir" a vida esportiva do atleta estejam caminhando conforme é necessário para o alcance da sua melhor performance.

Aqui não existe o "problema de casa fica em casa". O descuido com as relações, o descuido com a nutrição, o descuido com o descanso ou qualquer parte da sua vida que nutra sua preparação, poderá gerar resultados inesperados (um galho fraco, talvez?).

Em partes, o cuidado prestado pelo psicólogo esportivo nesta dimensão é feito na busca por tornar o atleta cada vez mais consciente das coisas que ele deve manter e cuidar em suas rotinas de preparação.

Os ramos e as folhas da preparação psicológica

Raízes e caules fortes propiciam o surgimento de grandes ramos e bela folhagem.

A base oferecida pelas raízes e pelo caule da árvore permitem que seus ramos e sua folhagem seja forte e bela o suficiente para lidar com as demandas do ambiente. São os ramos e as folhas da árvore que mais chamam atenção de qualquer um que passa por ela, afinal, são parte da sua maneira de se "expressar" no mundo.

No contexto esportivo atletas precisam lidar com diferentes experiências relacionais. Saber como se expressar, além de se reconhecer nessas experiências é fundamental. Um atleta, por exemplo, precisa saber qual é o seu papel em um grupo esportivo. Isto faz parte da sua "folhagem". Da mesma maneira, deve saber seu papel e maneira de se relacionar com uma instituição ou com a mídia. Isto faz parte dos seus "ramos". E frequentemente será convidado a opinar sobre questões sociais ou políticas que fortalecerão ou enfraquecerão a sua imagem diante da pessoas e de grupos específicos.

É importante compreender como o atleta se relaciona a partir de cada ramo e de que maneira isto pode afetá-lo ao longo de uma temporada. Além disso, vale lembrar que aqui ainda não estamos falando de aspectos relacionais do jogo esportivo, mas sim de tudo que está a sua volta.

As flores e os frutos da preparação psicológica

As flores e os frutos são parte do cuidado integral.

Não falarei que flores e frutos são os resultados de uma preparação. Pelo contrário, ainda são partes da preparação psicológica que visam determinado resultado. Uma árvore pode ter boas raízes, um caule forte e ser a mais frondosa de todas as árvores, mas se suas flores e frutos não estiverem prontas para encarar as demandas do ambiente, não oferecerão nada de bom.

A preparação psicológica do atleta deve levar em consideração de como é lidar com cada detalhe do ambiente esportivo. Nesta dimensão, a relação entre profissionais das ciências do esporte é fundamental. Os cuidados aqui já envolvem treino psicológico, prevenção de lesões, adoção de prescrições nutricionais, maneira de lidar com a pressão por resultados, aprimoramento de aspectos técnicos e táticos, comunicação em jogo/treino, entre outros cuidados que envolvem a performance do atleta no seu esporte.

Esta geralmente é a dimensão mais falada da preparação psicológica de um atleta, afinal, é nela que observamos cada detalhe da manifestação da experiência esportiva. Em outras palavras, seriam os caminhos que se direcionam para o ato de jogar/competir.

Somente aqui ficam mais evidentes todo aquele arcabouço de técnicas que tem como foco incidir na performance do atleta: Diálogo interno, visualização, estabelecimento de metas, técnicas de respiração, biofeedback/neurofeedback, realidade virtual, dinâmicas de grupo, etc.

Cada técnica, cada detalhe da preparação aqui tem como objetivo principal aprimorar as habilidades de concentração, percepção, tomada de decisão, regulação emocional, consciência corporal, autoconfiança e comunicação.


As sementes da preparação psicológica

Sementes carregam o potencial de proteção e renovação da natureza.

Resiliência. Possivelmente nenhuma outra palavra traduziria o que gostaria de dizer sobre o potencial de recuperação e renovação do atleta. É justamente essa capacidade de adaptar-se e renovar-se que precisamos ficar atento para além do treino psicológico.

Se as situações no caminho forem adversas, como estaremos acompanhamento a adaptação do atleta à estas adversidades? E se forem as melhores? E se ele tiver que mudar os caminhos, como estará se preparando para isso? A semente carrega a essência da vida do atleta e apesar de "menor", é mais potente que a raiz e seu caule.

Aqui poderíamos dizer que estaria presente toda a tendência atualizante do atleta como diria Carl Rogers, a pulsão de vida de Sigmund Freud ou a vontade de sentido de Viktor Frankl. Em outras palavras, essa parte da preparação psicológica seriam cercadas dos cuidados com aquilo que impulsiona o atleta a resistir cada mudança necessária na vida esportiva.

Essa parte da vida do atleta não é dotada de manuais técnicos que possam no auxiliar, tampouco de diretrizes que nos apontem o caminho certo para orientar o atleta diante de qualquer circunstância. É a parte mais sensível da preparação psicológica e que envolve uma vínculo positivo entre atleta e psicólogo esportivo.


Para fim ou início de conversa...

A proposta principal desse texto não é propor uma nova leitura ou uma perspectiva epistemológica do que seria o trabalho dos psicólogos esportivos com atletas. Pelo contrário, a principal intenção neste texto foi elucidar que o trabalho do psicólogo esportivo está muito além do que consideramos "treino psicológico" e envolve todo o potencial de atuação que "herdamos" dos 5 anos de formação mais os anos subsequentes de especialização na área.

Limitar-se aos cuidados com o treino psicológico é por um lado atestar que qualquer profissional sem habilitação alguma poderá trabalhar com os cuidados psicológicos ao atleta. Por outro, é reproduzir uma violência silenciosa do mundo esportivo que "entala" grande parte da formação do atleta enquanto pessoa.

Por isso, fazer alusão à árvore é apenas uma maneira de demonstrar que a preparação psicológica envolve diversas dimensões da vida do atleta que são indissociáveis umas das outras e que emergem a todo momento dependendo do momento esportivo e de vida encarado pelo atleta.

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